Cynthia Decker Corrêa Padilha *
Quando pensamos em adoção, logo de início, pensamos: “Que sorte, tantas crianças precisando de uma família, precisando receber cuidados, carinhos, e que sorte desses pais, que terão a oportunidade de receber uma criança que preencherá vazios e trará esperança. Isto é mesmo um privilégio!” Mas logo em seguida, somos levados a pensar na situação anterior a esta. O que ocorreu na história dessas pessoas até acontecer a adoção? Em primeiro lugar: uma criança foi abandonada. Esse abandono pode ser visto como algo incompreensível, desumano, principalmente nos casos nos quais houve maus tratos. Por outro lado, pode representar um ato de amor desses pais. Difícil entender? Mas vemos tantos pais que não se sentem capazes de cuidar de um filho, por limitações internas ou externas, e que entregam seu filho para que outras pessoas o cuidem. Preocupados com o presente e o futuro dessa criança, demonstram um ato, embora aparentemente estranho, de amor. E da parte dos pais adotivos? Bem, parece que a maioria deles não pode gerar filhos, filhos biológicos. Enfrentam sentimentos extremamente angustiantes em seu mundo interior. Muitos casais, mais fragilizados, não conseguem enfrentar a batalha. Outros são mais corajosos, e se dispõem a levar a luta adiante. Enfrentam a frustração por não poder gerar filhos, o que é um sofrimento bem importante. Alguns sofrem preconceito das pessoas ao redor, outros encontram apoio. Finalmente conseguem chegar na adoção.
E uma questão parece permear suas vidas de forma constante: as diferenças entre o filho biológico e o filho adotivo. Muitas pessoas dizem que o filho adotivo jamais será amado como o biológico. Uma questão polêmica para muitos. Mas para outros não. Vários profissionais se dedicaram ao estudo da relação pais-bebê, ou melhor, mãe-bebê. Explico porque digo “mãe-bebê”. Segundo esses estudiosos, a primeira relação do bebê com o mundo se dá com a figura materna. É claro que existe uma relação forte que se desenvolve durante a gravidez, e que no caso do adotivo é interrompida. Mas o principal vem depois. Filho adotivo ou biológico, pelo menos em nossa cultura, recebe os principais cuidados da figura feminina, a mãe, ou figura substituta, que cumpra a função materna. Então, não podemos dizer que a relação do bebê com a mãe desenvolvida durante a gravidez não seja importante, mas muito mais importante é a relação desenvolvida pós-nascimento. Vemos os casos em que a mãe biológica é presente na vida da criança, mas outra pessoa lhe dispensa mais atenção. Em quem a criança se apega? Certamente a quem mais lhe cuida. E os cuidados são realmente essenciais, não só para a sobrevivência física do bebê, mas para a sobrevivência emocional. Em minha experiência em hospital pude ver aquilo que é chamado de síndrome da privação materna. São bebês que apesar de receberem os cuidados de alimentação, troca de fraldas, etc, vão se desligando das pessoas e, aos poucos, do mundo, quando terminam morrendo. Primeiro eles passam por uma fase de protesto, quando choram, esperneiam, causam tumulto, pedindo socorro. Na segunda fase, cansados de lutar, entram num estado de desesperança, num crescente desespero, passando a não esperar mais nada. A terceira fase é a do retraimento, na qual sentindo-se totalmente desamparados, retiram toda energia invesrida no meio ambiente, efetuando um desapego emocional, recolhendo-se a um estado de indiferença, apatia e depressão. Quero com isso mostrar a importância de uma relação íntima com alguém. A esses bebês faltou algo essencial: o olhar de uma pessoa, a quem eles fossem intimamente ligados, que os mantivessem vivos, com esperança na vida. Eles eram largados no hospital e recebiam alguma visita, da mãe, geralmente, mas com o passar do tempo as visitas iam se espaçando e esses bebês iam gradativamente se desligando da mãe e do mundo. Então, os pais que adotam uma criança e geram essa esperança pela vida que a mantém viva, estão gerando vida. E esse é um desejo, se não uma necessidade, quase universal. Os adultos que foram desejados e receberam amor de seus pais, ou familiares, desejam passar adiante o que receberam. Desejam dar continuidade a suas vidas, seja de seus gens, suas idéias, seus valores, seus sentimentos mais profundos de amor. Quando esses adultos não têm fillhos, biológicos ou adotivos, geralmente fazem algum tipo de adoção, aproximando-se de sobrinhos, afilhados, alunos, pacientes, a quem dispensam seus melhores sentimentos. E o instinto fala alto. Todos já vimos programas sobre animais na televisão, ou lemos nos livros. Vemos como os animais cuidam de seus filhotes. O ser humano é o ser vivo que vive por mais tempo num estado de dependência absoluta de cuidados, mas muito animais também levam um longo tempo recebendo cuidado e proteção constantes até que possam ir se independizando. Às vezes animais de uma espécie cuidam de animais de outras, inclusive oferecendo amamentação. Isto não é uma adoção? Vocês viram na televisão o caso de um menino que, visitando um zoológico, caiu entre os gorilas? Ele ficou desacordado e a mãe-gorila o levou para um canto e o protegeu. Existe alguma dúvida se instinto materno/paterno existe?
Bem, volto à importância dos cuidados dispensados ao bebê e à criança. Aqui me lembro mais uma vez da importância desse amor. Alguns autores da psicanálise falam no “espelho”, ou melhor, na função do espelho. Dão ênfases diferentes, mas a idéia principal é a de que a criança precisa ter na mãe seu espelho. Seu espelho é o rosto da mãe, seu olhar, seu sorriso, expressões faciais, tom de voz. O bebê, em seu protopensamento, parece concluir: “Olho e sou visto, logo existo!” Sem esse olhar reconhecedor da mãe, a criança cai num total desamparo. Algumas mãe refletem uma imagem distorcida de seus filho, não respondendo de forma adequada a suas necessidades, o que não é muito saudável. Mas pior ainda é uma mãe que se comporta como um espelho embaraçado, opaco, que nada reflete.
É preciso que os pais sintam empatia com o filho, para o que necessitam estar em sintonia com este. Só assim podem perceber suas necessidades, que muitas vezes não são transmitidas por palavras. Também é necessário perceber suas pequenas conquistas que são tão enormes para o filho, encorajando-o em seu progresso na vida. Mas isso nem sempre é fácil. Como sentir empatia pela criança que grita e esperneia, que agride seus pais e irmãos?
Uma autora que trata da relação mãe-bebê, diz que os bebês trazem uma carga biológica de agressividade, que acompanha a força amorosa. Assim, é necessário que a força amorosa seja maior que a agressiva para que a criança possa se relacionar de forma saudável com as pessoas que lhe cuidam. Se a agressão é muito grande, o bebê ataca o que recebe, fazendo com que o amor recebido nunca seja suficiente. A isso se junta a capacidade dos pais em tolerar a agressão, a exigência do bebê. Esta talvez seja uma das tarefas mais difíceis. Quando o bebê sente algo desprazeroso, quando tem algum sofrimento, só sabe demonstrar através do corpo. Pode chorar, ter distúrbios do sono, ficar inapetente,... Quando a criança já sabe falar, a comunicação pode se tornar mais clara, mas muitas vezes a criança não consegue pôr em palavras aquilo que sente. Aí a importância dessa sintonia da qual falo. Conter a angústia do bebê ou criança é algo essencial para sua sobrevivência psíquica. Quando um aparelho psíquico está em desenvolvimento, significa que não está preparado para sentir todos os sentimentos, e aí entra o importante papel de quem lhe cuida. É necessário que o adulto possa “emprestar” seu psiquismo, que possa conter a angústia do bebê, sentindo pelo bebê o que ele não pode sentir.
Para ilustrar algumas dessas idéias, trago o exemplo de uma criança que atendo em meu consultório. Ela tem atualmente 4 anos recém feitos, tendo chegado a mim com dois anos. Essa criança possui uma mãe, que faz uso de drogas e é soro-positivo. Essa criança passou fome, frio e foi batida. Veio a mim através da insituição na qual vive, por não emitir som algum. Estavam preocupados com sua fala. Quando chegou a mim, verifiquei que tampouco olhava em meus olhos. Não sabia brincar. Desenvolvi um trabalho de cuidadora. Ela passou a sentir que havia alguém preocupada com ela, assim como na casa aonde vive, porém alguém mais capaz de entender e tolerar seus sentimentos por eu ter mais tempo, por estar me dedicando a somente uma criança naquela hora e talvez uma maior disponibilidade interna, o que faz parte de meu dia-a-dia no consultório. Eu lhe dava mais atenção do que normalmente tinha, pois convive em um grande grupo, onde há poucas “tias”. Começou a ver que poderia confiar em mim, pois sempre no dia e hora combinada, 2 vezes por semana, eu estava lá esperando por ela. Passei a nomear as palavras, que acompanhadas de emoção, começaram a lhe fazer um maior sentido. A primeira vez que emitiu uma palavra, foi quando brincava na pia e atirava água para cima, molhando tudo à volta. No momento de maior emoção, falou baixinho: “água!”. Em algumas sessões não falava nada. Em outras voltava a emitir alguma palavra. Foi confiando aos poucos em mim, e logo tive a notícia de que era um tagarela. Mas não expressa tudo em palavras, como nenhuma criança nem mesmo os adultos. Por ocasião das férias, dei a notícia de que ficaríamos alguns dias sem sessão. A resposta que tive foi um balde de água fria na minha cabeça. Ela me deu o troco na mesma moeda. Estava tão envolvida comigo, que as férias significavam um balde de água fria! Eu estava desenvolvendo o papel de mãe. Quando ele olhava pra mim, percebia meu olhar interessado e carinhoso, percebeu vida em meu olhar. Começou a se sentir reconhecido e valorizado. Muitas vezes colocava para fora sentimentos intensos de raiva, tristeza, desespero, chorando e gritando sem parar. Em sua casa, não tem espaço para isso, pois não dispõe de uma tia com dedicação exclusiva a ele e que não se assustasse tanto que pudesse conter sua angústia. Cabe a mim, como sua terapeuta, contê-la. Fico do lado dele, mostrando que posso lhe acompanhar nesses momentos de dor, que pode dividir seu desespero comigo, até mesmo passar sua dor para mim e sair do consultório sentindo-se leve, aliviado. Desempenho, nesses momentos, a função materna.
Vemos como o funcionamento da dupla mãe-bebê (leia-se sempre mãe=função materna) é importante. Winnicott, um pediatra inglês que se tornou analista, sempre enfatizava que não podemos falar só no bebê, pois ele não existe sem uma mãe, temos que falar na dupla mãe-bebê. Logo que o bebê nasce, já demonstra se é mais calmo ou mais agitado, se ele se satisfaz mais facilmente ou se é mais exigente, etc. Os pais que não têm contato com a criança desde bebê também logo perceberão essas características. Somente dou o exemplo do bebê, para mostrar como essas características são inatas. Mas o desenvolvimento de sua personalidade não depende somente dessas características, depende também de como a relação entre o bebê e a mãe vai se desenvolver. Cuidar de um bebê calmo é mais fácil. Mas não tão fácil, porque por mais tranqüilo que ele seja, sempre fará exigências. Então mesmo um bebê/criança tranqüilo, precisa encontrar uma mãe disposta a se doar. Imaginem então um bebê mais exigente? Mais tranqüila precisa ser a mãe. Claro que falhas sempre existem e quando não são demasiadamente severas, podem sempre ser recuperadas, pois a criança é um ser em desenvolvimento com ricas capacidades inatas ao crescimento. Sua personalidade vai se desenvolvendo conforme a relação vai sendo estabelecida com os pais. Quando a criança começa a freqüentar outros ambientes, como a pré-escola por exemplo, vai criando outras relações importantes, com as pessoas que cumprem aquilo que chamamos de função materna. Essas pessoas “adotaram” várias crianças das quais cuidam diariamente. Teriam um forte instinto materno? Desejo materno? Certamente. Quem sabe estas pessoas que substituem as mães em parte do dia, ou durante o dia todo, são as vezes mais “mães” do que as próprias mães. Para a criança é essencial que alguém cumpra essa função e com muito amor. É só através de vivências amorosas que o bebê desenvolve o sentimento de que a vida vale à pena.
Mas isso não é tão simples assim. Mesmo a criança que teve o privilégio de ter pais presentes e um dia acreditou que esses eram fonte de toda bondade, generosidade, esperança, passa por algo que faz parte do desenvolvimento normal. Inevitavelmente fazem um movimento de idealizar os pais e depois, devido as frustrações da realidade, dezidealizar. Um dia o bebê chorou e logo recebeu o peito ou a mamadeira. Outro dia teve que esperar. A mãe passa de maravilhosa a malvada. E esse movimento de dissociação ocorre da criança em relação ora à mãe, ora ao pai. Um é maravilhoso, o outro malvado, até que inverte. Toda criança em um momento de frustração, que sente ou o pai, ou a mãe, ou ambos, como malvados, sente-se abandonada, desejando ter pais diferentes e aí fantasia ser filha adotiva, questionando a origem de sua vida. Uma outra questão é a necessidade que toda criança tem de testar o amor de seus pais, de ver até onde ela é amada. Seus impulsos agressivos são a eles direcionados, atacando seus pais, desejando destruí-los. São momentos difíceis nos quais se faz essencial que os pais demonstrem que são capazes de sobreviver a esses ataques, bem como seu amor o é. Vários acontecimentos são difíceis e fazem parte dessa relação construída no dia-a-dia entre pais e filhos. Apesar das dificuldades, quase ninguém resiste: a maioria quer ter filhos, sejam biológicos ou adotivos.
* Psicóloga formada pela PUC-RS com especialização no IEPP (Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia)



